Resenha. ‘Bruxas; figuras de poder.

Autor. Gilvandro - Gil.



As mulheres que constituem figuras que expurgam as fobias da contra reforma, foram torturadas e queimadas. Parteiras, curandeiras e carpideiras. O Manual do inquisidor do século XIV, o Malleus Maleficarum, as descreve de bruxas, perigosas com pacto com o demônio e práticas pagãs, desafiam as ordens estabelecidas e devem ser queimadas.
“A partir disso Paola Basso Menna Barreto Gomes Zordan professora, doutora da UFRS em seu ensaio ‘Bruxas; figuras de poder”, publicado na revista estudos feministas,13 (2): 331-341, maio-agosto/2005 discorre como as mulheres pagaram um preço muito alto em pensar e agir fora dos padrões estabelecidos pela igreja e pela sociedade patriarcal, são as bruxas.
O ensaio pauta no manual de inquisidores do século XIV, chamado Malleus Maleficarum e no livro La sorciére (A feiticeira) do historiador Jules Michelet.Enquanto no Malleus Maleficarum “Martelo das feiticeiras” a bruxa se envolve com o mal e é execrada, La Sorciére de Michelet a transforma em mártir enaltecendo suas ligações com a natureza. Os dois vislumbram ideias paradoxais da imagem da mulher independente. A bruxa pode ser tanto a bela jovem sedutora, como a horrenda anciã. A figura da bruxa é certo modo de enxergar a mulher quando ela expressa poder ao longo da civilização patriarcal. Toda expressão de poder por parte de mulheres desembocava em punição.

Segundo Paola Zordan a figura das bruxas traduzia-se em mulheres devoradoras e perversas que matavam recém-nascidos, comiam carne humana, participavam de orgias, transformavam-se em animais, voavam, tinha relações intimas com o demônio e entregavam sua alma para o diabo. A caracterização da bruxa constitui-se como um dos elementos mais perversos produzidos na sociedade patriarcal do ocidente.
O conhecimento de origem camponesa, com suas práticas e crenças, modos de tratar doenças e lidar com situações da existência é tido como criminoso dentro da Contra Reforma, rompendo leis que ignoravam as bruxas encarnavam tudo que é rebelde. E com isso seus atos são considerados malignos e selvagens dignos de severas punições.
Entre o real o real e o imaginário as bruxas eram aquelas cujas práticas eram consideradas crimes mais graves do que as heresias. A bruxa é maléfica e corruptora e, portanto o castigo por sua insubmissão é a forca, fogueira, solidão.
No léxico catequizante a bruxa era o expurgo de todo mal, a bruxa serviu como função pedagógica de cunho moralizador.   A bruxa vinculada à natureza está vinculada ao diabo e quando operava algum prodígio era porque tinha ajuda do demônio como consta no Malleus Maleficarum. Conforme Paola Zordan, por pecado subentenda-se luxúria, era vista como “besta imunda” pelos autores do Malleus. Todas as artimanhas atribuídas às bruxas desemboca no ato carnal, toda corrupção era oriunda do ato venéreo. “Perversa tenta saciar sua lascívia obscena” aquela cuja cobiça carnal é causa de infidelidade.
Mulher fatal, mortífera, causa de perdição, a bruxa advém das antigas deusas, da Lilith hebraica, dos ritos dionisíacos e dos bacanais. Torturadas das mais terríveis formas todas confessavam suas relações sexuais com o demônio. O Malleus Maleficarum diz que essa relação não era carnal, mas em rituais de sexo e luxúria, festas macabras, descritos como missa negra, festividades não cristãs.
As bruxas quando presas eram desnudadas a procura de um sinal que pudesse recriminar “a marca da bruxa” a “marca do diabo” existiu um enfoque considerável no corpo da bruxa. Na maior parte das vezes as bruxas eram condenadas à morte, mas não bastavam enterrá-las era necessário queimá-las para não voltarem das sepulturas.
Nos séculos XV a XVII as pobres acusadas não foram efetivamente ameaça, mas suas condenações serviram para reafirmar o poderio religioso como resposta a redescoberta do humanismo greco-romano. No século XIX a bruxa é descrita como “mártir universal’ pelo historiador Jules Michelet”. O romântico Michelet mostra a imagem da bruxa como exilada, morando sozinha em lugares ermos da natureza, expulsa ou fugida da sua aldeia. E logo serviria de confessora de apaixonados.
Conforme a autora ao tratar das bruxas, Roberto Sicuteri refere-se ao arquétipo da mulher selvagem, que acompanham os preconceitos sobre mulheres independentes. Em sua história medo do ocidente, Jean Delumeau mostra a mulher como bode expiatório, com a ajuda de um estereótipo há muito tempo constituído. Como fator chave na diabolização da mulher, a sexualidade feminina sempre insaciável e voraz.
Sua existência histórica se deve à poesia clássica e ao direito canônico, literatura e retórica, fontes documentais que registram a bruxa como elemento lendário e ao mesmo tempo vívido por muitas sociedades. Seu tipo psicossocial está na fila das anormalidades. Defeituosas, a bruxa não consegue ser descolada do seu corpo e de suas artes. Felix Guattari e Gilles Deleuze dizem que a arte é um modo de pensar através do percepto. A bruxa é o que eles chamam de “figura estética” A bruxa é personagem conceitual da psicanálise e das psicologias; a bruxa-histérica e suas disfunções da libido são os extremos da mascarada; choro e riso, crueldade e compaixão-oscilações que configuram os humores femininos presos à matéria instável, sujeitos ao tempo e às mutações.
A bruxa é aquela que se compõe junto a uma grande variedade de pré-conceitos pensados sobre o feminino, sobre o corpo, a natureza e os ciclos de nascimento, vida e morte. As descrições do Malleus Maleficarum ajudaram a construir uma imagem fantástica sobre pessoas, na maior parte das vezes mulheres. Todos esses prodígios eram ineficientes depois que as bruxas eram tomadas sob o jugo da Igreja.

Tipo psicossocial ligado aos resquícios pagãos da Idade Moderna, a bruxa carregou em seu corpo os saberes não racionais que a sociedade dessa época temia. Corpo pleno, que fulgura na singularidade da carne, estendido ao corpo da terra e ao do céu que a circunda. Corpo-mundo engolidor.

REFERÊNCIAS.
DELUMEAU, Jean.  História do medo no Ocidente: 1300-1800, uma idade sitiada. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
MICHELET, Jules. A feiticeira. São Paulo: Círculo do livro, 1989.
SICUTERI, Roberto. Lilith: a Lua Negra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.